Fotografia: Pedro Chavedar
Conteúdo

Para entender as manifestações de 2013 no Brasil

O fenômeno brasileiro insere-se no cenário de protestos realizados ao redor do mundo nos últimos anos. Segundo relatório da CIVICUS, desde 2011 pelo menos 88 países experimentaram diferentes tipos de movimentação social em massa. E esse novo panorama da organização social tem gerado novas reflexões sobre participação popular e principalmente transformando realidades políticas e sociais.

Em diferentes contextos e por razões distintas, multidões foram às ruas para reivindicar seus direitos e cobrar mudanças sociais e políticas em suas culturas. No entanto, apesar das distinções entre as motivações dos protestos entre diferentes países, existem algumas peças do cenário mundial que podem ser vistas como pano de fundo para esses novos fenômenos que tem alcançado cada vez mais nações ao redor do planeta.

Linha do tempo internacional

Anterior
  • Argentina

    2002

    Argentina

    O assassinato de Kosteki e Santillán. Esses dois jovens manisfestantes assassinados pela polícia em 26 de junho de 2002, quando o país passava por uma grande crise e mais de 20% da população jovem estava desempregada. A polícia simples atirou nos dois em frente à câmeras da televisão. Nesse dia foram 33 feridos e os dois jovens mortos.

  • Chile

    2006

    Chile

    "Revolución de los pinguinos": Série de manifestações realizadas por estudantes secundários e do ensino médio no Chile.

  • Tunísia e Egito

    2010

    Tunísia e Egito

    Primavera Árabe: Multidões foram às ruas em países árabes reinvindicar o fim dos regimes autoritários e dos líderes que ocupavam o governo há anos. Em alguns países a onde protestos obteve sucesso na retirada desses líderes, como no caso de Zine el Abidine Ben Ali na Tunísia e Hosni Mubarak no Egito.

  • EUA

    2011

    EUA

    Movimento norte americano que surgiu no contexto de crise econômica e questionou o modelo econômico vigente e a desigualdade social e econômica no país. Orgnização social cidadã que levou milhares de americanos às ruas e que foi rigorosamente censurada pelo governo norte americano.

  • Espanha, Grécia e Portugal

    2011

    Espanha, Grécia e Portugal

    Movimentos na Europa: Em alguns países europeus como Espanha, Grécia e Portugal a onda de protestos e a ampla organização civil tambpem foi uma reinvidicação por mudanças econômicas e mais sensibilidade do Estado para resolver os problemas reais da população. Esses protestos no geral foram motivados pela incapacidade dos Estados de dialogarem com a população e lidarem com as consequências negativas da crise econômica mundial. A frustração das populações com seus representantes políticos foi aspecto comum em diferentes protestos ao redor do mundo.

  • Chile

    2011

    Chile

    Estima-se que mais de 500 mil estudantes secundários e do ensino médio foram às ruas no país para cobrar profundas mudanças estruturais no sistema educacional nacional, principalmente por um ensino público e gratuito de qualidade. O governo e a polícia atuaram de forma repressiva. Centenas de jovens foram detidos arbitrariamente e outros inúmeros foram feridos na sequência de protestos.

  • Turquia

    2013

    Turquia

    O movimento se iniciou como um protesto ambiental a favor da preservação de um parque na cidade de Istambul. Após a repressão policial violenta aos manifestantes, as manifestações tomaram proporções muito maiores em diversas cidades do país e inseriram pautas antigovernamentais.

  • Venezuela

    2013

    Venezuela

    O país tem enfrentado situações de tensão por conta dos protestos e mobilizações sociais, sobretudo depois que Hugo Chavez, que foi presidente por 15 anos, faleceu. As eleições que elegeram o seu sucessor Nicolás Maduro foram bastante polêmicas para a opinião pública do país, bem como as medidas políticas que ele tem tomado agora como presidente. Desde então, distintos protestos ocorreram no país, que foram reprimidos por Msv.

Próximo
  • 2002
  • 2006
  • 2010
2011 2013

A característica comum entre esses e outros países, como Turquia e países europeus como Grécia e Espanha, foi o grande contingente de pessoas ocupando o espaço público como forma de se expressarem. Ruas, avenidas e praças foram inundadas de pessoas insatisfeitas. Em alguns países, houve até acampamentos, que simbolicamente demonstravam o que a população queria deixar claro: as cidades pertencem às pessoas que elas habitam.

A resposta dos governos às manifestações e protestos populares, em geral, não foi positiva. Os governos reagiram de diferentes maneiras em cada país, mas a repressão policial foi um denominador comum na tentativa de remover as pessoas das ruas e diminuir a expressão popular. Em diferentes proporções ao redor do mundo, manifestantes foram agredidos, presos e até assassinados pela demonstração de insatisfação e revolta no espaço público. É possível observar que tanto nos regimes democráticos quanto em autoritários, as reações aos movimentos sociais foram em sua grande maioria tentativas de diminui-los ou impedi-los, por meio de medidas legais ou extralegais que buscavam intimidar e desencorajar os indivíduos ativos da sociedade civil. Uma recente pesquisa da organização Freedom House mostra que a reação autoritária de países democráticos a esses movimentos populares inclusive alterou o panorama da liberdade no mundo.

No entanto, independente da repressão que os manifestantes possam ter encontrado ao redor do mundo, ela não foi suficiente para frear a onda de protestos. Desde 2010, essa nova configuração de protestos com massiva ocupação do espaço público que ocorreram inicialmente em alguns países do mundo árabe, foram se repercutindo com uma considerável frequência em outros países e alcançaram um impacto global.

Uma possibilidade de análise dessa repercussão tão imediata e longínqua é refletir sobre o aspecto comunicacional atual e a capacidade de interação e articulação que a sociedade adquiriu por meio da internet. As mídias digitais sociais foram ferramentas importantes de mobilização para os grandes protestos ao redor do mundo. O dinamismo desses meios de comunicação foi fundamental para a divulgação dos protestos, ações e ideias dos manifestantes e foi no ambiente digital que a repercussão dos protestos aconteceu, inclusive em âmbito internacional. Essa nova possibilidade de interação é marca fundamental dos protestos do novo século.

Além disso, não só para articular os integrantes dos movimentos em si, a internet possibilita um alcance muito maior sobre fenômenos nacionais que repercutem em âmbito mundial com detalhes que veículos de comunicação tradicionais não costumam abordar e que podem ser motivadores quando membros de diferentes movimentos sociais interagem entre si. Os protestos nos países árabes, por exemplo, serviram de referência para a organização do movimento Occupy Wall Street.

É importante ter em vista este aspecto regional quando discutimos os protestos no Brasil, pois as similaridades das reivindicações e da resposta governamental demonstram o caráter internacional da insatisfação popular com a classe política. Ainda mais relevante, é comparar a violência empregada pelos diferentes governos da região ao lidar com os protestos populares. Vê-se que o direito à liberdade de expressão e à manifestação é comumente violado pela justificativa da manutenção da ordem e em outros países da América Latina a repressão também acontece além da violência policial contra os manifestantes nas ruas, como por meio da repressão e da perseguição a líderes de movimentos sociais em países como Paraguai no contexto da luta pela reforma agrária e Bolívia no contexto da luta indígena.

As ditaduras militares que alguns países da América Latina têm em comum também são um aspecto importante para se pensar como o Estado reage à manifestações populares na região. As democracias recentes que não passaram por períodos de agitação popular intensos como estes dos últimos anos desde que se configuraram, mostram certo despreparo dos governantes para dialogar com a população.

Além disso, sobretudo no Chile e no Brasil, onde os órgãos de segurança estatais não foram reformulados desde a época em que os países estavam sob regimes autoritários, as estruturas policiais formam agentes do Estado treinados para a repressão afim de garantir a segurança do espaço público. A ministra de Direitos Humanos do governo Dilma Roussef, Maria do Rosário comentou o despreparo da formação policial brasileira para lidar com esse tipo de fenômeno: “Continuamos com um modelo de polícia que herdamos da ditadura -e os manuais com os quais os policiais são formados, bem como as práticas de abordagem das pessoas nas manifestações e nas ruas, são resquícios daquele regime".

Segundo estudo do PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – da ONU, os países da América Latina com maior número de protestos sociais são também aqueles com os maiores níveis de desigualdade socioeconômica, mas que também os avanços que a região tem obtido em termos de redução da pobreza e acesso a recursos, como internet e telefonia móvel, por exemplo, têm incentivado a participação cidadã.

Como entender o fenômeno brasileiro?

O Brasil também integrou a lista dos países que vivenciaram os grandes protestos dos últimos anos. O maior conjunto de manifestações que houve em 2013 aconteceram no mês de junho.

Elas se iniciaram por causa do aumento na tarifa do transporte público em várias cidades do país. Entretanto, o rumo dos protestos atingiu proporções muito maiores do que as iniciais e outras pautas foram trazidas à tona pelos cidadãos que ocuparam as ruas nesse período.

A fim de compreender os protestos que ocorreram no país em 2013, a Artigo 19 buscou a opinião de especialistas sobre diferentes pontos de vista do contexto brasileiro que motivaram direta ou indiretamente os grandes protestos ocorridos no país. Não se pode analisar as manifestações de 2013 de forma isolada, sem serem considerados os antecedentes históricos que as proporcionaram e sem o reconhecimento de o que se passou em junho foi fruto de um processo que se relaciona com diferentes aspectos culturais, políticos e sociais do país.

Do ponto de vista urbanístico, a urbanista Raquel Rolnik dá pistas sobre a relação da mobilidade com o processo de esgotamento do modelo urbano e com a insatisfação popular a respeito do uso das cidades. Além disso, Rolnik também nos chama atenção para os níveis de acesso à cidade que as diferentes classes sociais têm e como essa desigualdade se projetou nos protestos e foi compreendida e respondida pelo Estado. Os protestos de rua mostram do ponto de vista urbanístico a necessidade da população em demonstrar o poder de decisão sobre o uso do espaço público.

O jornalista e professor da Universidade de São Paulo, Eugênio Bucci fala sobre os aspectos comunicacionais que influenciaram as manifestações e explica a relação entre a cobertura dos veículos de comunicação e a adesão popular aos protestos. Além disso, nos contextualiza sobre novos personagens no cenário midiático, as mídias digitais sociais e os veículos alternativos e quais os papéis desses novos integrantes no cenário atual brasileiro.

Para melhor compreender as reivindicações políticas que surgiram nos protestos, como o questionamento da democracia representativa e as demonstrações de intolerância com os partidos políticos, o professor de Ciência Política da PUC-SP, Pedro Fassoni fala sobre o contexto político em que se encontra o Brasil e como esses aspectos repercutiram nos protestos na medida em que também foram responsáveis por proporcioná-los.

Sobre o ponto de vista sociológico, o professor de relações internacionais da PUC-SP, Reginaldo Nasser, especialista em conflitos, analisa a violência ocorrida nos protestos, tanto a empregada pelos agentes do Estado, tanto a dos próprios manifestantes e nos aponta reflexões sobre o que expressa essa agressividade e como ela repercutiu e foi responsável pelo rumo das manifestações no país.

As entrevistas com estes quatro especialistas estão nos vídeos a seguir. As respostas não necessariamente refletem a opinião da Artigo 19 sobre o tema.