Fotografia: Pedro Chavedar
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Sobre jornalistas

Jornalistas e profissionais de comunicação que trabalharam na cobertura dos protestos de 2013 foram vítimas tanto da violência policial quanto da hostilidade dos cidadãos comuns. Esse não foi um fenômeno que surgiu nas manifestações ocorridas em 2013, mas tal situação tornou-se uma situação recorrente nos protestos do país.

Os jornalistas estavam sujeitos à violência policial assim como todos os manifestantes. Dessa maneira, ao cobrirem os protestos buscando uma cobertura próxima, real e de dentro das manifestações, os profissionais de comunicação se expuseram à ação policial assim como aqueles que estavam no local para protestar. Nos dias de maior violência contra manifestantes, a violência contra os comunicadores foi maior também. Ou seja, os protestos mais violentos tendem a ser mais violentos contra jornalistas também.

Os profissionais que cobriam as manifestações relataram táticas utilizadas pelos agentes de segurança para impedir indiretamente o registro das ações policiais durantes os protestos, mas também denunciaram que foram intencionalmente atingidos pela polícia na tentativa de impedir que a cobertura e o registro da violência policial continuassem. Diversos depoimentos apontam que mesmo depois de se identificarem como profissionais e afirmarem que estavam cobrindo as manifestações, jornalistas continuaram a ser ameaçados, agredidos e até mesmo detidos.

O repórter Francis Juliano, identificado com o crachá de imprensa, sendo detido em protesto no dia 22 de Junho de 2013. Foto: Betto Júnior.

Alguns números envolvendo os comunicadores no contexto dos protestos:

Alguns números envolvendo os comunicadores no contexto dos protestos

Por que atingir um jornalista?

Essas ações são uma tentativa de frear o debate público ao impedir que informações sobre a atuação policial, ou mesmo sobre a dinâmica dos protestos, cheguem à população por meio dos veículos de comunicação. O acesso a dados concretos, por meio de entrevistas com manifestantes, agentes do Estado, fotos e vídeos é importante para a formação de opinião da população, que uma vez bem informada pode tomar inúmeras decisões, como a de aderir ao protesto por se identificar com as reivindicações. A presença dos jornalistas no meio das manifestações para cobrir com detalhamento e precisão o que ocorre no protesto é muito importante para uma análise mais plural e sólida sobre o contexto social do país.

"No contexto de manifestações e situações de conflito social, o trabalho de jornalistas e comunicadores e o livre fluxo de informações através dos meios de comunicação alternativos como as redes sociais digitais, é fundamental para manter a população informação sobre os acontecimentos, pois cumpre um papel importante de reportar a atuação do Estado e da Força Pública ante as manifestações, prevenindo o uso desproporcional da força e o abuso de autoridade". Frank La Rue, relator especial da ONU para Liberdade de Expressão.

Medidas do Estado contra a violência a jornalistas

A Secretaria de Direitos Humanos realizou uma audiência pública em São Paulo no dia 25 de Junho de 2013 para abordar o tema da violência contra jornalistas nos protestos. Nessa audiência, alguns profissionais que foram vítimas da violência policial deram seus depoimentos e levantaram alguns dos problemas que enfrentaram para exercer o seu trabalho durante as manifestações. Questionaram a desproporcionalidade da atuação policial, como no uso desmedido e exagerado de armas não letais.

Segurança profissional

Outro ponto importante nesse debate é a falta de equipamentos e treinamentos de segurança dos jornalistas que cobriam as manifestações. Tendo em vista que a cobertura jornalística buscava registrar momentos de tensão entre policiais e manifestantes e outras situações conflitantes, os veículos de comunicação devem presumir que os seus profissionais se colocariam em situações de risco a fim de garantir uma cobertura próxima e que a falta de equipamentos de proteção pode deixá-los mais expostos a sofrerem as consequências dos momentos de conflito ou violência.

Hostilidade dos manifestantes e as críticas às instituições midiáticas

Por outro lado, houve atitudes hostis e violentas dos manifestantes com relação a jornalistas e a outros elementos representativos da mídia, como veículos e sedes de emissoras, sobretudo a Rede Globo que foi alvo de manifestações que pediam a sua reestruturação e o fim de seu monopólio.

É importante analisar o contexto dos meios de comunicação de massa no Brasil, para entender a violência contra jornalistas partindo dos próprios manifestantes. A mídia brasileira tem um papel simbólico de poder, sobretudo pela falta de pluralismo de pontos de vista e ideias apresentados e pelo monopólio da concentração de veículos nas mãos de poucos detentores.

A revolta dos manifestantes contra instituições tradicionais que representam o establishment mostra que existe uma grande distância separando a sociedade e sua vida cotidiana das grandes instituições. As demonstrações de hostilidade também demonstram um questionamento do poder que estas instituições representam.

Não podemos esquecer que em alguns momentos a mídia cobriu com parcialidade as manifestações, inclusive legitimando o uso da repressão dos agentes do Estado para conter os manifestantes. Isso gerou inicialmente um distanciamento da voz das ruas e da voz da mídia e parte da população não se sentiu representada na abordagem jornalística de muitos veículos e inclusive injustiçada pela cobertura que não abordava todos os pontos reivindicados nas ruas.

A cobertura da imprensa e o rumo das manifestações

Observar a atuação da imprensa e sua influência na opinião pública pode ser uma interpretação importante para compreender a mudança na dinâmica dos protestos. No início dos protestos de junho, os grandes veículos de comunicação realizaram uma cobertura, no geral, negativa, que ressaltava aspectos prejudiciais dos protestos, como a interrupção da mobilidade urbana na cidade e os atos de vandalismo que danificaram vidraças de banco, pontos de ônibus e estações de metrô, provocados por parte dos manifestantes que estavam nas ruas.

Grandes jornais como a Folha de SP e o Estado de SP chegaram a publicar editoriais em que chamavam os manifestantes de baderneiros e vândalos e pediam mais rigor da polícia militar para intervir nos protestos e impedir os atos de depredação do espaço público. E assim aconteceu. Por coincidência ou não, no mesmo dia em que esses editoriais foram publicados, a polícia militar atuou com muito mais força e truculência nas manifestações que ocorreram na cidade de São Paulo, atacando as pessoas com armas como balas de borracha e bombas de efeito moral.

Muitos jornalistas desses jornais e de outros veículos que estavam cobrindo as manifestações também acabaram sendo alvo da violência policial, dentre eles alguns casos mais emblemáticos como a repórter Giuliana Vallone, da TV Folha, que foi atingida por uma bala de borracha no olho disparada por policiais militares da ROTA (Ronda Ostensiva Tobias de Aguiar) e o fotógrafo Sergio Silva que também levou um tiro de bala de borracha no olho, e acabou perdendo a visão.

Os profissionais de comunicação por estarem de certa maneira inseridos nas manifestações e sofrerem as consequências da violência empregada pela polícia militar, imprimiram suas impressões na cobertura que esses veículos passaram a fazer dos protestos e com isso o exagero da violência policial ficou mais claro.

A mudança de tom dado à cobertura das manifestações e a reconstrução do discurso foram de grande influência para a posterior massificação que os protestos ganharam. A violência em excesso da polícia militar também motivou muitas pessoas a apoiarem os manifestantes que foram vítimas dessa truculência, mas para isso foi fundamental ter conhecimento desse excesso através da mídia.

O papel da mídia alternativa nos protestos

Em termos de acesso à informação sobre o que acontecia nos protestos, também é importante pontuar o papel mídia alternativa, que são os veículos de comunicação que não têm o caráter comercial dos tradicionais e que se aproximam do jornalismo cidadão por ser elaborado por pessoas não necessariamente profissionais de comunicação e também não serem veiculados nos moldes tradicionais de consumo, e sim de uma maneira mais livre e, sobretudo, dinâmica, principalmente através da internet.

Sem desmerecer a importância dos grandes veículos na formação da opinião pública, as chamadas mídias alternativas alcançaram uma notável repercussão na onda de protestos de junho. Principalmente porque a sociedade como um todo tem consumido informação em novos formatos por meio das tecnologias digitais e esses veículos produzem informação nestes novos moldes. Se esses meios de comunicação já são empregados pela população em muitos outros aspectos culturais, já era de esperar seu amplo uso nos protestos brasileiros.

Essa nova maneira de fazer comunicação muito mais interativa e que permite a participação popular também mudou a própria atuação das mídias tradicionais, ainda que de maneira muito tímida. Pode-se ver, por exemplo, vídeos gravados pela Mídia Ninja sendo transmitidos no Jornal Nacional, o jornal mais visto pelos telespectadores em todo o país.

Não se sabe se foi a mudança de posição da mídia com relação aos protestos que levou mais pessoas às ruas ou se a grande adesão popular no movimento, combinada às experiências sofridas pelos profissionais dos veículos durante as manifestações, que obrigou a reconstrução do discurso e abriu o leque dos pontos de vista aos protestos brasileiros de 2013. A relação dos meios de comunicação com os fenômenos populares é primordial para sua existência, fortalecimento e adesão popular.